July 25
guarda-me
adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais sobre
esta terra de ninguém onde morro
por qualquer coisa que me fale de ti
há noites assim em que o silêncio
se transforma ao de leve numa lâmina
que minuciosamente rasga o linho
onde ficou esquecido o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes
depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta
e eu adormecida para sempre
no teu peito
e eu acorrentada para sempre
no teu peito
e de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas
porque as palavras certas estavam todas
em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor
muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão
e eu adormecida para sempre
no teu peito
e eu acorrentada para sempre
no teu peito
Alice Vieira
July 16

Gosto muito de beijos.
Pequenos, grandes, quentes, continuados, entrecortados, poucos, muitos,
longos, curtos, com e sem línguas, com e sem dentes. Gosto de brincar com a língua;
mais ainda com os lábios; muito também com os dentes. Gosto de beijar. À bruta.
Esclarecido este ponto, há outra manifestação de gostar que ainda mais gosto. O abraço.
O abraço é mais, mas muito mais, pessoal e reservado que qualquer beijo.
Sempre o senti como a maior (e mais verdadeira) demonstração de carinho entre duas pessoas.
Pessoalmente, adoro fechar-me num abraço numa pessoa que goste.
Se gostar muito, gosto de lá me perder; de lá me esquecer que estou – ficando.
O verdadeiro abraço – e é tão fácil de o sentir (e dar) – é impossível ser falso.
Quanto maior a proximidade de alguém em nós, mais gostamos de a abraçar.
O abraço consegue criar um envolvimento de verdadeira segurança; de conforto.
Ao abraçar, a troca de energias processa-se em canal aberto.
Com tudo isto, afirmo que o abraço antecede o beijo.
Dois namorados (que gostem a sério um do outro), se não se vêm durante algum tempo,
encontram-se num, muito antes do(s) beijo(s)...
Tu, quando chegares, abraça-me sim?
É que eu gosto. Muito.
(do blog gostar a bruta)